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Sem governança, infraestrutura pode acelerar desmatamento na Amazônia

Autor: Paula Drummond27 de abril de 2026
Trecho não pavimentado da Rodovia Transamazônica, entre Rurópolis e Uruará (Brasil). Foto: Keith Irwin.

Aconteceu nesta última quinta-feira (23) a apresentação da palestra “Amazônia 2050: cenários de desmatamento, governança e impactos climáticos”, com o professor Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em dinâmica territorial. Com cerca de 80 participantes, entre público online e presencial na OTCA, o encontro promovido pelo Observatório Regional Amazônico (ORA) reforçou a necessidade de compreender e monitorar os vetores que promovem o desmatamento, apontado como um dos fatores que podem levar a Amazônia ao ponto de não retorno.

Além disso, estudos publicados em revistas científicas mostram que o desmatamento reduz a precipitação e as receitas agrícolas na Amazônia brasileira, reforçando o papel da floresta na regulação climática e na sustentação do agronegócio.

Análises do grupo de Britaldo Soares-Filho, baseadas em modelagem espacial de cenários de uso da terra, indicam que a expansão agrícola segue como um dos principais vetores de pressão. Modelos como o OTIMIZAGRO projetam crescimento superior a 50% na produção de commodities como soja e milho no Brasil, impulsionado sobretudo pela abertura de novas áreas, e não por ganhos de produtividade.

Em termos de logística, ele destacou o caso de Mato Grosso, na região central do Brasil, um dos principais polos produtores de soja, onde os custos de transporte permanecem entre os mais elevados. Esse fator ajuda a explicar a pressão por investimentos em transporte. “Hoje há uma demanda para ampliar a infraestrutura de transporte, sobretudo para escoar as commodities agrícolas”, afirmou.

A palestra destacou que grandes projetos de infraestrutura, como as rotas de integração sul-americana e novos corredores logísticos, podem desencadear efeitos indiretos relevantes. “Mais infraestrutura reduz o custo de transporte, aumenta o preço da terra e, consequentemente, estimula o desmatamento”, explicou. Iniciativas como o megaporto de Chancay, no Peru, e o Plano Nacional de Logística e Transportes do Brasil exemplificam esse movimento de integração entre Atlântico e Pacífico, que amplia oportunidades econômicas, mas também riscos ambientais.

SimAmazôniaInfra

O sistema de informação SimAmazôniaInfra, que está sendo desenvolvida pelo Centro de Inteligência Territorial da UFMG, pretende ser uma ferramenta que antecipa os impactos de grandes obras de transporte na Amazônia. O sistema simula diferentes cenários ligados às Rotas de Integração Sul-Americana para estimar custos, benefícios e riscos antes que os projetos sejam implementados.

O objetivo do SimAmazôniaInfra é entender como essas infraestruturas podem afetar a economia, o desmatamento, a biodiversidade e as áreas protegidas, especialmente em uma região que deve passar por mudanças intensas nas próximas décadas. Os cenários gerados pelo SimAmazôniaInfra, estarão disponíveis no ambiente do ORA, e os países poderão acessar e opinar sobre a assertivas ali contidas.

Por fim, Soares-Filho ressaltou o papel dessas ferramentas como suporte à formulação de políticas públicas. Com bases de dados abertas, uso de inteligência artificial - inclusive para mapear estradas ilegais - e capacidade crescente de processamento, os modelos buscam orientar o ordenamento territorial e priorizar ações de conservação. “O objetivo é melhorar a compreensão dos problemas para apoiar soluções”, sintetizou, defendendo que decisões sobre infraestrutura e uso da terra considerem, de forma integrada, seus custos e benefícios ambientais.

Veja os slides da apresentação.

Créditos da imagem: Trecho não pavimentado da Rodovia Transamazônica, entre Rurópolis e Uruará (Brasil). Foto de Keith Irwin.

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