Rios voadores: ORA pode fortalecer o monitoramento regional
Autor: Nina Rodrigues7 de outubro de 2026
Ampliar a compreensão sobre os rios voadores e discutir como esse conhecimento pode contribuir para a segurança hídrica, a tomada de decisões e a valorização dos serviços ecossistêmicos da Amazônia foi o foco do Seminário Interno “Rios Voadores, Segurança Hídrica e Valoração Econômica dos Serviços Ecossistêmicos da Amazônia”, realizado em 7 de outubro, na sede da Secretaria Permanente da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (SP/OTCA), em Brasília.
O encontro reuniu especialistas em clima, hidrologia, ecologia e economia, representantes dos Países Membros e instituições parceiras para discutir o estado do conhecimento sobre os fluxos de umidade amazônica, os territórios que deles dependem e o valor econômico dos serviços hidroclimáticos prestados pela floresta. Monitoramento, governança, financiamento e possibilidades de cooperação regional também estiveram no centro dos debates.
Na abertura, o secretário-geral da OTCA, Martin von Hildebrand, destacou a importância estratégica da floresta em pé para a economia e a estabilidade climática e propôs compreendê-la como uma infraestrutura natural, cujos benefícios alcançam territórios muito além da Amazônia.
“A Amazônia é um ativo estratégico cuja função sustenta a economia da América do Sul e contribui para a estabilidade climática do planeta”, afirmou.

Participantes do Seminário Interno “Rios Voadores, Segurança Hídrica e Valoração Econômica dos Serviços Ecossistêmicos da Amazônia”, realizado em 7 de outubro, na sede da Secretaria Permanente da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (SP/OTCA), em Brasília. Foto Frida Montalvan (OTCA).
Uma infraestrutura hidroclimática continental
A água que circula pela atmosfera conecta a Amazônia a territórios muito além de seus limites geográficos. A umidade proveniente do Atlântico Tropical alimenta as chuvas sobre a Bacia Amazônica e parte dessa água retorna à atmosfera pela evapotranspiração da floresta, contribuindo para novas precipitações na própria região e em outras áreas da América do Sul. Esse processo faz da floresta um componente fundamental do sistema climático continental.
Como explicou Jhan-Carlo Espinoza, pesquisador do Institut de Recherche pour le Développement (IRD), até 50% da precipitação amazônica pode retornar à atmosfera. “La Amazonía no es solamente un bioma: es parte de una infraestructura hidroclimática continental y global”, sintetizou.
Mas o funcionamento desse sistema está sob crescente pressão. As mudanças climáticas, o desmatamento, a degradação florestal e os incêndios afetam a reciclagem da umidade e a circulação atmosférica, ao mesmo tempo que secas e cheias extremas se tornam mais frequentes e intensas. A seca de 2023–2024, por exemplo, atingiu 88% da Bacia Amazônica, ilustrando a dimensão dos riscos para a região.
Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), e José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), aprofundaram a compreensão sobre o papel da floresta na regulação do clima e das chuvas e os efeitos das mudanças climáticas, do desmatamento e da degradação florestal sobre esse sistema. Embora o conhecimento científico sobre os rios voadores tenha avançado significativamente, persistem lacunas importantes no monitoramento da circulação atmosférica e dos fluxos de umidade.
Jhan-Carlo Espinoza (IRD) explica o papel da floresta na reciclagem da umidade.
Paulo Artaxo (USP) participa virtualmente do Seminário.
José Marengo (CEMADEN) aborda os impactos das mudanças climáticas na Amazônia.
Para Gonzalo Llosa, coordenador do Observatório Regional Amazônico (ORA), avançar nesse conhecimento exige fortalecer a capacidade regional de monitoramento e integrar informações sobre clima, recursos hídricos e cobertura florestal. O ORA já oferece uma base para esse trabalho, com uma rede de 921 estações de monitoramento hidrológico e de qualidade da água, além de informações sobre desmatamento, degradação e incêndios. A ampliação dessas capacidades, incluindo o desenvolvimento de um módulo climático, poderá contribuir para compreender melhor os fluxos de umidade amazônica e produzir informações que apoiem a tomada de decisões nos Países Membros.
Andes e Amazônia: territórios conectados
A dimensão territorial da interdependência foi abordada por Luis Daniel Llambí, do CONDESAN. A conexão Andes–Amazônia funciona nos dois sentidos: a umidade reciclada pela floresta contribui para as precipitações nas regiões andinas, enquanto os rios que nascem nos Andes transportam água, sedimentos e nutrientes fundamentais para os ecossistemas amazônicos.
As florestas de transição entre Andes e Amazônia são hotspots de precipitação e biodiversidade e têm importância estratégica diante das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, populações e atividades econômicas andinas dependem das precipitações provenientes da região amazônica.
A mensagem foi a necessidade de “mirar la región como un todo integrado”. A discussão sobre resiliência reforçou a importância de combinar conservação e restauração dos ecossistemas, gestão territorial e soluções baseadas na natureza com uma perspectiva de cooperação que reconheça a dimensão transfronteiriça dos riscos.
O valor econômico dos rios voadores
A terceira mesa levou a discussão da dependência hidroclimática para seus impactos econômicos. Estudos apresentados por Esha Dilip Zaveri, do Banco Mundial, mostram que as florestas funcionam como amortecedores naturais das secas ao preservar a umidade do solo. Na Amazônia, estimativas associam a redução das chuvas provocada pelo desmatamento entre 2001 e 2020 a perdas anuais entre US$ 2,9 bilhões e US$ 11,4 bilhões no PIB, além de impactos sobre energia e produtividade agrícola.
Gustavo Ribeiro Soares Pinto, da Climate Policy Initiative/PUC-Rio, apresentou evidências dos efeitos sobre a economia brasileira, particularmente nos setores de hidroeletricidade, agricultura e transporte fluvial. Rafael Araújo, da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou como métodos econômicos podem conectar mudanças na cobertura florestal e na precipitação aos impactos sobre a produção e outros setores.
A valoração permite tornar visíveis relações de dependência que ainda são pouco incorporadas às decisões econômicas e de investimento — e abre caminho para discutir como os beneficiários dos serviços hidroclimáticos podem contribuir para sua conservação.
Edoardo Borgomeo, do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), chamou atenção para uma lacuna na governança dos recursos hídricos: enquanto os sistemas de gestão se concentram tradicionalmente na água azul — rios, lagos e aquíferos —, a água verde, presente no solo e na vegetação e reciclada pela evapotranspiração, permanece pouco incorporada aos instrumentos de gestão.
Para enfrentar esse desafio, Borgomeo defendeu o fortalecimento e a articulação dos mecanismos institucionais existentes, em vez da criação de um novo tratado específico para os rios voadores. Também propôs adaptar instrumentos financeiros para reconhecer e recompensar os serviços hidrológicos transfronteiriços gerados pela conservação, incluindo pagamentos por serviços ecossistêmicos, financiamento por resultados e fundos de água.
Da ciência à cooperação regional
Ao final do Seminário, as discussões convergiram para a necessidade de transformar o conhecimento compartilhado em uma agenda regional de trabalho, com continuidade dos grupos especializados, maior intercâmbio de conhecimentos e articulação entre as diferentes instâncias da OTCA.
Entre os próximos passos apontados estão a elaboração de planos de ação e grupos de trabalho para aprofundar temas específicos e a aceleração da instalação da Rede Amazônica de Autoridades Meteorológicas (RACEM). Sua articulação com a Rede Amazônica de Autoridades de Água (RADA) e o ORA pode aproximar as dimensões atmosférica e hidrológica necessárias ao monitoramento regional dos rios voadores.
No encerramento, Martin von Hildebrand ressaltou que o Seminário foi um primeiro espaço e que o processo deverá continuar. Para ele, os rios voadores mostram de forma particularmente clara a importância da Amazônia para além de suas fronteiras e colocam em pauta a necessidade de reciprocidade pelos serviços ambientais que a região presta.
O encontro deixou, assim, uma mensagem central: se os benefícios hidroclimáticos produzidos pela Amazônia atravessam fronteiras e sustentam água, alimentos, energia e atividades econômicas em diferentes territórios da América do Sul, sua proteção também exige conhecimento compartilhado, cooperação, investimento e reciprocidade em escala regional.
Foto destacada: Maycon Castro (ORA/OTCA).



