Enfrentar a degradação florestal em escala regional requer acordo sobre como medi-la
Autor: Paula Drummond28 de setembro de 2026
Uma floresta pode continuar de pé e, ainda assim, perder biodiversidade, capacidade de armazenar carbono, regular a água e oferecer outros serviços ecossistêmicos. Essa característica torna a degradação florestal mais difícil de definir e monitorar do que o desmatamento.
Diferentes formas de compreender e medir esse processo foram discutidas por especialistas da FAO, Banco Mundial, JRC, INPE e universidades brasileiras durante o Encontro Regional sobre Degradação Florestal na Amazônia, realizado pela OTCA e pela Rede Amazônica de Autoridades Florestais (RAFO) nos dias 27 e 28 de agosto, em Brasília, com mais de 60 participantes.
Segundo a Avaliação dos Recursos Florestais Mundiais da FAO de 2025, 74 países e territórios contam com algum tipo de definição de degradação florestal. Elas variam conforme o tipo de floresta, os objetivos de manejo e os valores atribuídos aos ecossistemas. Uma mesma alteração pode ser considerada degradação quando implica perda de biodiversidade, mas não necessariamente quando o critério considera apenas a manutenção da produção de madeira. “A grande diversidade de definições não reflete apenas diferenças entre tipos de floresta, mas também diferentes percepções, objetivos e valores associados às florestas”, explicou Xavier De Lamo, da FAO.
Essa diversidade tem implicações práticas. Sistemas comparáveis exigem acordos sobre o estado de referência, as mudanças consideradas significativas e a escala em que serão medidas. Também há diferenças sobre as causas consideradas, embora, segundo De Lamo, as discussões internacionais estejam avançando para uma abordagem baseada nos efeitos observados sobre a floresta.
Outro debate diz respeito às causas. Algumas definições restringem a degradação aos impactos provocados por atividades humanas; outras consideram a perda de estrutura ou de funções da floresta independentemente da origem da perturbação. Segundo De Lamo, as discussões internacionais vêm apontando para uma abordagem baseada nos efeitos observados sobre a floresta, especialmente porque fatores naturais e antrópicos podem estar cada vez mais interligados.
Satélites ampliam capacidade de detectar mudanças
A evolução do sensoriamento remoto representa um dos principais avanços recentes no monitoramento da degradação. Séries históricas do Landsat permitem reconstruir décadas de mudanças nas florestas, enquanto sensores mais recentes, como o Sentinel-2, aumentaram significativamente a frequência de observações.
O INPE monitora a degradação na Amazônia brasileira por meio do Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real - DETER , sistema de alertas em tempo quase real voltado a apoiar ações de fiscalização e controle do desmatamento, da degradação e da exploração florestal. Para fins de monitoramento, o INPE entende a degradação como uma alteração significativa da estrutura ou das condições da floresta causada por distúrbios que não resultam necessariamente em sua conversão completa para uma área não florestal.
Na prática, essa definição é traduzida em feições que podem ser identificadas nas imagens de satélite. O DETER considera diferentes manifestações da degradação, como degradação química ou sazonal, cicatrizes de incêndios florestais, corte seletivo e blowdowns, associados à queda de árvores provocada por ventos fortes. Segundo Alessandra Gomes, do INPE, uma característica importante da degradação é seu caráter potencialmente temporário, já que a floresta pode seguir trajetórias distintas, recuperando-se após a perturbação ou sofrendo novas alterações até chegar ao corte raso.
René Beuchle, do JRC, apresentou outra abordagem operacional, utilizada pelo Tropical Moist Forest (TMF), desenvolvido pelo JRC da Comissão Europeia. A partir de séries históricas de imagens Landsat, o sistema acompanha as florestas tropicais desde 1990 e utiliza a duração das perturbações para diferenciá-las. No TMF, alterações com duração inferior a 900 dias são classificadas como “floresta degradada”. “O que chamamos de floresta degradada significa, na prática, que o período de perturbação foi curto”, ressaltou Beuchle.
Os exemplos mostram como conceitos de degradação precisam ser traduzidos em critérios observáveis, mas também os limites do sensoriamento remoto. Satélites detectam mudanças na cobertura e na estrutura da vegetação, mas não necessariamente alterações na biodiversidade e em outras dimensões da integridade florestal. Para De Lamo, por isso, sensoriamento remoto, dados de campo e validação devem funcionar de forma complementar.
Da diversidade de indicadores a uma abordagem regional comum
Mariana Conte, do Banco Mundial, propôs ampliar o olhar para além da estrutura física da vegetação. Na revisão apresentada durante o encontro, a degradação foi tratada como perda de integridade florestal, conceito organizado em três dimensões: estrutura, funções e composição. A primeira considera características como cobertura e complexidade do dossel. A segunda incorpora funções e serviços ecossistêmicos, como armazenamento de carbono e regulação da água. A terceira inclui a composição da floresta e a diversidade de espécies.
A revisão identificou dez indicadores estruturais, 24 funcionais e cinco relacionados à composição. Apesar dessa variedade, há forte desequilíbrio na capacidade atual de monitoramento. Indicadores estruturais são os mais utilizados, enquanto aspectos funcionais são medidos parcialmente e a dimensão da biodiversidade permanece como uma das principais lacunas.
“Adotar um enfoque de integridade florestal pode ser uma boa maneira de ordenar os indicadores. Mas é preciso fechar a brecha entre as grandes possibilidades tecnológicas e a prática”, afirmou Conte.
Essa diversidade não exige necessariamente uma única metodologia regional. Alessandra Gomes apontou como caminho manter os sistemas nacionais, desde que baseados em dados validados e metodologias reconhecidas, e construir uma legenda comum que permita integrar os resultados em escala amazônica. Segundo Gomes, essa abordagem permitiria a produção de mapas regionais sem substituir ou comprometer os sistemas de monitoramento já adotados pelos países.
Amazônia já avança na construção de uma visão regional
Na Amazônia, parte desse desafio já começa a ser enfrentada a partir da integração de informações produzidas pelos oito Países Membros da OTCA.
Joberto de Freitas, da Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Amazonas (UFAM), apresentou resultados em elaboração para o segundo informe regional sobre florestas da Amazônia, que combina informações nacionais e variáveis construídas regionalmente, entre elas as perturbações florestais temporárias, desenvolvidas com a metodologia da FAO para a Avaliação dos Recursos Florestais.
Entre 2000 e 2024, a análise identificou 37,7 milhões de hectares de florestas que permaneciam conservadas em 2024, mas haviam sofrido alguma perturbação temporária. Outros 8,6 milhões de hectares inicialmente afetados evoluíram para desmatamento.
Os resultados revelam processos que a divisão entre “floresta” e “não floresta” não consegue mostrar. “A definição é sempre um gargalo”, reconheceu Freitas. Para ele, informações regionalizadas permitem “olhar a Amazônia sem as fronteiras internas” e criar um espaço comum de análise.
Como encaminhamento do evento para fortalecer o monitoramento e o enfrentamento da degradação florestal nos oito países amazônicos, Gian Pezo, representante do Peru na presidência pró tempore da RAFO, propôs a formação de um grupo técnico para construir um glossário regional, desenvolver protocolos comparáveis, implementar projetos-piloto transfronteiriços e ampliar a interoperabilidade dos dados. “A Amazônia não precisa de uma metodologia imposta, mas de uma linguagem compartilhada, parâmetros transparentes e protocolos comparáveis que integrem sensoriamento remoto, dados de campo e conhecimento territorial”, sintetizou Pezo.
Foto: Incêndio em Paragominas, 2017, por Clément Bourgoin (CIRAD/JRC).



